Vega Sicilia...e o Touro Osborne.
Omnipresente. Sim. Por todas as estradas espanholas, onde coloques a mirada, o Touro Osborne. Mas, ao alcançar a Andaluzia, é como se ele estivesse na sua terra. O touro, los gitanos, o trigo. Jerez de la Frontera, Jaén, Granada, Sevilha, Córdoba.
Aonde é que fica a Catedral? “Na tua frente”, respondi. Mas, isso nao é a famosa Mesquita? “Sim, e a Catedral”. Aonde? “Na Mesquita”. Uma coisa foi construida em cima da outra, uma coisa sobre a outra. Ah, basta de explicações.
“Joé...Qué Caló”, dizia uma camiseta encontrada em qualquer loja de souvenir da Andaluzia. Ao meio-dia era insuportável naquele Julho. Ele olhava tudo com uma insaciedade incrível, como um menino, perdido entre os brinquedos. Perdido. Ele se perdia. O seu tempo passava. O tempo o via passar. Quase fim.
Havia passado a vida. Desde pequeno, aprendeu que as dificuldades, as dores constantes, era o teor da vida. Impossível desfrutar. A vida: marco de um sofrimento sem fim. Mas agora estava perto. Ele podia relaxar.
Saimos cedo de Cádiz, e ele me disse: Quero conhecer Portugal também. Está logo ali, depois de Huelva. E tudo aquí fica tão perto. Se lembra quando nós fomos do Rio a Porto Seguro direto, em 11 horas, com uma estrada toda arrebentada, cheia de caminhões? Se lembra que depois de Campos, no crepúsculo, um caminhão veio na nossa direção e quase nos fez purê? E ele riu. Fazia muito tempo que não ria. Eu deixei que os meus lábios se esticassem, em consentimento.
“Mas nós vamos para o outro lado, para Gibraltar. El peñón de Gibraltar. Se lembra? Você queria conhecer Gibraltar e, depois, cruzariamos para Marrocos”. É que eu já não posso mais. Estou muito cansado. Quero voltar para a terrinha. E se calou. Não emitiu mais um som. Fazia muito calor.
Dirigi aquele dia em pleno silêncio. Não ousava, sequer, colocar uma música. Era um barulho de motor com o vento quente entranhado. E nada mais. Nada.
Chegamos. Nos alojamos. Esta noite reinaria o silêncio. Fomos dormir. Fazia calor. Súbitamente, ele sentia o frio. Entrava pelos ossos. Abri o armário e encontrei uma colcha. O abriguei. Ele começou a suar frio. Os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile. Continuava sentindo frio. E disse: a terrinha. Depois daqui, seja como for, me leva para Portugal. Era noite. E reinou o silêncio. A cor do silêncio.