Su gravedad y
El grave peso
Que flota y
Sopesa al espacio.
Movimiento tácito
De la luz,
Aire y ausencia
De cosas en vano.
De tiempo inerte
a la par
De pensamientos.
Movimiento vano,
De dones
Sin dueños.
Ontem, casualmente, percebi que tudo começou muito antes. Tudo começou antes mesmo de que eu escolhesse um caminho. E esse será o ponto de partida: alguns poucos poemas escritos em 1990, quando ainda a decisão e o caminho não estavam e a vida era outra. São mais de dez anos de pouquísimas palavras. Esse é o ponto de partida. Buenos Aires, 23 de dezembro de 2002 Aníbal Menezes Neto
Vega Sicilia...e o Touro Osborne.
Omnipresente. Sim. Por todas as estradas espanholas, onde coloques a mirada, o Touro Osborne. Mas, ao alcançar a Andaluzia, é como se ele estivesse na sua terra. O touro, los gitanos, o trigo. Jerez de la Frontera, Jaén, Granada, Sevilha, Córdoba.
Aonde é que fica a Catedral? “Na tua frente”, respondi. Mas, isso nao é a famosa Mesquita? “Sim, e a Catedral”. Aonde? “Na Mesquita”. Uma coisa foi construida em cima da outra, uma coisa sobre a outra. Ah, basta de explicações.
“Joé...Qué Caló”, dizia uma camiseta encontrada em qualquer loja de souvenir da Andaluzia. Ao meio-dia era insuportável naquele Julho. Ele olhava tudo com uma insaciedade incrível, como um menino, perdido entre os brinquedos. Perdido. Ele se perdia. O seu tempo passava. O tempo o via passar. Quase fim.
Havia passado a vida. Desde pequeno, aprendeu que as dificuldades, as dores constantes, era o teor da vida. Impossível desfrutar. A vida: marco de um sofrimento sem fim. Mas agora estava perto. Ele podia relaxar.
Saimos cedo de Cádiz, e ele me disse: Quero conhecer Portugal também. Está logo ali, depois de Huelva. E tudo aquí fica tão perto. Se lembra quando nós fomos do Rio a Porto Seguro direto, em 11 horas, com uma estrada toda arrebentada, cheia de caminhões? Se lembra que depois de Campos, no crepúsculo, um caminhão veio na nossa direção e quase nos fez purê? E ele riu. Fazia muito tempo que não ria. Eu deixei que os meus lábios se esticassem, em consentimento.
“Mas nós vamos para o outro lado, para Gibraltar. El peñón de Gibraltar. Se lembra? Você queria conhecer Gibraltar e, depois, cruzariamos para Marrocos”. É que eu já não posso mais. Estou muito cansado. Quero voltar para a terrinha. E se calou. Não emitiu mais um som. Fazia muito calor.
Dirigi aquele dia em pleno silêncio. Não ousava, sequer, colocar uma música. Era um barulho de motor com o vento quente entranhado. E nada mais. Nada.
Chegamos. Nos alojamos. Esta noite reinaria o silêncio. Fomos dormir. Fazia calor. Súbitamente, ele sentia o frio. Entrava pelos ossos. Abri o armário e encontrei uma colcha. O abriguei. Ele começou a suar frio. Os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile. Continuava sentindo frio. E disse: a terrinha. Depois daqui, seja como for, me leva para Portugal. Era noite. E reinou o silêncio. A cor do silêncio.
Nadas, sim. Nadas. Muitas vezes Nada. Mil vezes Nada. Nada de cuidado. Nada de carinho. Nada de respeito. Nada de humildade. E os outros 996 nadas para completar 1000.
Ele era assim: cara-de-pau. Dura. Fixa. Imutável. Brilhante. Encerada. Podiam passar um milhão de situações desagradáveis que ele permanecia ali: qual estátua. Imóvel. Sem presentar uma ruga de preocupação. Sembrante perfeito. Lúcido. Iluminado.
Tinha saído aquele dia com más intenções. Digo, más intenções como um pleonasmo já que pela sua cabeça não podia passar nada melhor. Andou ao longo da Marylibone Road como se caminhasse pelo calçadão de Copacabana. Camiseta do Manchester United, buscando algum pub para molhar a goela.
Parou. Olhou para um lado. Olhou para o outro, e desafiou. Pôs o pé direito no pavimento, mantendo o esquerdo na calçada. Um taxi parou. Ele perguntou, em um perfeito inglês, sem esboçar qualquer sentimento:
Voce está livre?
Sim, claro.
Então viva a Liberdade!!
O taxi disparou, silencioso, guardando o ódio em pleno exercício da delicadeza inglesa que era necesária no West Side. Ele gargalhou. E gargalhou tanto que sentia dor na barriga. Sózinho. Só. Mais ninguém. Ninguém podia entender aquele prazer. E seguiu.
Ele acabava de sair do Regent's Park. Caminhou pela Marylebone. Brincou com o taxista e, agora, estava parado na porta do Museu. O convite para virar estátua do Madame Tussauds lhe chegou em boa hora. Ensaiou a sua. Fazia frio. Ele, congelado.
Passou ali meia-hora. Duro. De cera. De madeira. Ganhou algumas moedas. Queria mais. Decidiu esticar o turno. Cinco horas já passavam. Quando estimou 10 libras parou. Se moveu, para a surpresa de todos. Se virou de frente para o museu. Fez um breve ademan e se despidiu do público. Foi para o Hyde Park para despotricar contra a Rainha. Depois gastou as 10 libras no primeiro pub que encontrou em Lancaster Gate.
“A partir de maio já faz frio em Cachi”, ela me disse, como se fosse para mim alguma novidade. Foram várias as vezes que subi a Cuesta del Obispo. Em maio.
Silêncio. Na Reta Tintin, circundado de cardones, eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos no deserto. Sua gratidão me conformou. Partimos
Dizem que o frio máximo se alcança depois das 8 da manhã, depois que saia o sol. Depois. Nunca antes. Nunca no crepúsculo. Nunca na alvorada. Nunca. Sempre um frio seco, desértico. Depois que as coisas belas ocorrem. Depois.
São tantos os anos que estivemos juntos. Uma infrutífera vida a dois. É por isso que aquele silêncio, da Reta Tintin, era como um espelho, iluminado pelo sol matutino e um céu de um azul sem igual. “A
Mas essa era a partida. O fim que se vê no final das coisas. O fim da Reta Tintin. Há poucos quilômetros estaríamos